Volta às aulas exige atenção redobrada para crianças com autismo

O retorno às aulas marca um período de mudanças importantes na rotina de milhões de famílias brasileiras. Para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse momento pode ser ainda mais sensível, já que a quebra da previsibilidade, tão necessária para o bem-estar emocional, costuma gerar ansiedade, insegurança e dificuldades de adaptação ao ambiente escolar.

Dados do Censo 2022, do IBGE, mostram que 2,4 milhões de pessoas no Brasil declararam ter recebido diagnóstico de autismo. A maior proporção está na faixa etária de 5 a 9 anos, com 2,6% das crianças identificadas com TEA, justamente o grupo mais impactado pelo início do ano letivo. A prevalência é maior entre meninos, com 1,5%, enquanto entre meninas o índice é de 0,9%. Em números absolutos, o Sudeste concentra mais de 1 milhão de pessoas diagnosticadas, seguido pelo Nordeste, Sul, Norte e Centro-Oeste, o que reforça a dimensão do tema em todo o país.

Segundo Mailson Palhano, Supervisor do Ambulatório TEA do Complexo de Saúde Pequeno Cotolengo, a dificuldade está diretamente relacionada à mudança brusca da rotina. “A criança com autismo se organiza muito a partir da previsibilidade. Quando esse padrão é alterado, é comum observar aumento da ansiedade, alterações no comportamento, resistência para ir à escola e até regressões temporárias”, explica.

Para minimizar esses impactos, o especialista destaca que a preparação antecipada é um dos principais aliados. Conversar com a criança sobre a volta às aulas, explicar o que vai mudar, apresentar novos horários e, sempre que possível, familiarizá-la com o ambiente escolar antes do início das atividades ajudam a reduzir a insegurança. A manutenção de horários regulares para dormir, se alimentar e realizar atividades diárias também contribui para que a criança se sinta mais segura durante o processo de adaptação.

Outro ponto essencial é o alinhamento entre família e escola. O diálogo constante permite que professores compreendam as necessidades da criança e adotem estratégias mais adequadas dentro da sala de aula. “Quando família, escola e equipe terapêutica caminham juntas, a criança percebe esse ambiente como mais previsível e acolhedor, o que favorece o aprendizado e o desenvolvimento”, ressalta Mailson Palhano.

O Complexo de Saúde Pequeno Cotolengo atua no atendimento de crianças com TEA por meio de uma abordagem multiprofissional, envolvendo psicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia e equoterapia. O acompanhamento especializado auxilia não apenas no desenvolvimento da criança, mas também no suporte às famílias e na orientação às escolas, especialmente em períodos de transição como a volta às aulas.

Mais do que um desafio, o início do ano letivo pode se tornar uma oportunidade de crescimento quando há informação, empatia e apoio adequado. Com planejamento e orientação profissional, é possível transformar esse momento em uma experiência mais tranquila, segura e positiva para crianças com autismo e suas famílias.

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